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Diário de Bordo n. 06 – Gatos, ratos e insônias

- Se nós não nos casarmos até os 40 anos, eu prometo que caso com você.

Promessa feita por dois pirralhos sem nada na cabeça há (meu deus, faz tanto tempo assim?) quase 3 anos. Promessa inocente, promessa que só teria efeitos lá longe, longe demais para pensar. Mil coisas podem acontecer – e provavelmente vão – dos 16 aos 40. Mas a promessa estará lá, unindo, cercando, juntando os compromissários. Eu prometi.

- Você é um idiota, fica correndo atrás dessa vadia, ela está brincando com você, como você ainda não percebeu? Você já viu aqueles gatos de rua brincando com rato morto? Jogando o pobre de cujus de um lado para o outro? Então, você é o rato morto dela.

Afirmação meio gritada para um amigo que carregou tanta verdade que machucou. Não pensei no que estava dizendo, e a maldade escondida apareceu, manchando uma discussão saudável. Amigo bobo, apaixonado, desses amigos que você mal conhece, mas se apaixona e não quer ver sofrer. Vinte anos e paixões infantis, sardônicas como só as paixões infantis podem ser. Pobre amigo. O efeito da frase de efeito proferida sem pensar só foi descoberto tempos depois, numa bebedeira desse amigo. Ele chorou e disse que se sentiu um lixo, por mensagens confusas disse que sua vida não tinha sentido e que queria se matar. Por conta de uma frase idiota. A culpa não me deixou dormir.

- Tá tudo bem. Ninguém te aguenta, ninguém me aguenta, no final, nós vamos nos casar.

Epa. Aquele sentimento de me achar presa num mundo sem escolhas começou a me engasgar. Como assim? Eu quero me casar por amor com um cara legal. Quero ter meus próprios filhos, próprios sonhos. Casar com meu melhor amigo era uma brincadeira. Né? Eu desejo uma felicidade completa, não uma pela metade, faltosa. Esse amor esquisito que eu sinto por ele é tudo, e acredite quando eu digo TUDO, menos carnal. Não consigo conceber ele me tocando, me dando prazer. Não somos mais pirralhos, eu sou uma mulher. Perdida em mais medidas do que eu posso aguentar, mas ainda sim, mulher. Conheço meu corpo e minha mente, e com toda a certeza do meu coração, eu sei que não. Apenas não.

- Já pensou que talvez ele tenha uma culpa indireta nas coisas da sua vida que lhe incomodam?

Meio da noite, insônia, hora perfeita para pensar na vida. De repente, meu alter ego cruel me surpreende com essa afirmação. Minha incapacidade de um bom relacionamento me incomoda mais que tudo. Incomoda, dói, me desespera e me humilha. Eu sou normalmente boa nessa coisa de pessoas.  A única pergunta que permanece é: o que será que ando fazendo de errado? Não sei dançar a valsa esquizofrênica de ligar, não ligar, atender, não atender, fingir que não viu a mensagem de texto, fazer biquinho sem motivo, recuar, avançar… isso é complicado demais para mim. Acho que a culpa deve ser minha, por ser impaciente demais. Se eu quero, eu preciso. A noite avançou, os pensamentos viraram, e o jogo do “e se…” começou na minha cabeça: e se eu não consigo ninguém porque ele sempre está aqui? E se eu não consigo administrar um relacionamento porque é mais fácil ter um pseudo relacionamento com alguém que jamais vai me julgar? Alguém no qual eu posso cometer qualquer erro e permanecerá aqui? E se o que nós temos é realmente doente?

As coisas precisam mudar, e rápido.

O resumo dessa noite infeliz foi que eu não consegui dormir, levantei da cama antes do sol nascer e deu uma volta no frio congelante de 8° graus pelo meu bairro para colocar as coisas no lugar. Cheguei a uma conclusão: a forma mais segura de adquirir conhecimento é testar. O que pode ser da minha vida sem ele?

E minha mãe, mesmo sem querer ou saber, deu o veredicto final deste dia que já começou pitoresco:

- Filha, eu não queria me meter na sua vida, mas já passou pela sua cabeça que ele pode ser o seu rato morto?

Não mãe, isso nunca passou pela minha cabeça. Mas será que passou pelo meu coração?

Diário de bordo n. 05 - A razāo das coisas

Feriado no inverno é uma desgraça: você fica na cama o dia todo pensando em mil coisas e entrando em mil brisas… tentando fazer esse mundo louco fazer sentido. Confesso, ainda estou influênciada pela ida do Rodrigo. Ainda perdida. Mas eu já usei metade deste dia que acabou de terminar para imaginar uma otima vida para mim, entāo agora eu me sinto bem melhor.
O novo tópico reinante na minha cabeça é qual é a razāo das coisas. Pra que serve um jogo? Um esporte? Pra que serve uma competiçāo? Eu sei pra que serve uma cama, um copo, alegria e tristeza, mas me falta entender porque um ser humano luta para provar que é mais forte que outro ser humano.
Se vivessemos só com o essêncial (um papo muito legal que eu estava tendo ontem mesmo com um cara que eu tinha acabado de conhecer), o que você deixaria pra tras? Particularmente eu deixaria tudo que eu nāo sei para que serve.
Transportando essa idéia para o plano mental, o que eu tenho de deixar para tras para acordar um novo ser? Tenho tantos sentimentos que eu nāo sei para que serve…
Para que serve a politica? Para se criar um mundo mais justo. E para que serve a justiça? Para igualar as possibilidades de cada um buscar sua felicidade. E para que serve a felicidade? Pra quê ser feliz? A felicidade é um fim em si mesmo.
Ser um fim em si é bom ou ruim?

Diário de Bordo n. 04 – O dia em que me encontrei sozinha

Antes de começar eu preciso confessar que, acima de todos os meus defeitos eu tenho aquele; sabe, aquele, que é o pai de todos os outros defeitos, e por isso, é da onde deriva todos os outros. Aquele meu defeito é o egoísmo. Não consigo me importar com os outros antes de mim. Sou egoísta a níveis estratosféricos. Veja bem, não sou uma filha da puta – não para isso ao menos – divido, ajudo, me esforço pelos outros. Mas quando estamos falando dos meus sentimentos, eu sou o ser mais avarento do mundo. Eu PRECISO que alguém me faça feliz, que alguém se importe comigo, que me diga o que fazer quando eu me sentir perdida. Preciso de carinho e proteção. Preciso ligar para alguém e falar “Me encontra em tantos minutos em tal lugar?” e saber que a pessoa estará lá.

Quem a longos três anos estava aqui, foi o Rodrigo, o Rod, quem atendeu meus telefonemas e me emprestou dinheiro. Quem me ouviu chorar quando alguém quebrava meu coração, quem estava sempre aqui. Foi ele que escolheu a faculdade em que eu faria Direito, quem passou a mão na minha cabeça e me deu bronca. Foi ele que fez as coisas que eu mais detesto e as que eu mais amo. Foi ele.

Hoje eu acordei me perguntando o quanto é fácil se apegar a alguém. O quanto é fácil ajustar sua vida na vida de outra pessoa e apenas… viver. Nós já somos um, e de repente (TÃTÃTÃTÃÃÃÃÃN) Rodrigo vai viajar, a principio por um mês, que podem se converter em 3 anos. Três anos. Você consegue imaginar o que são três anos sem ninguém? Eu não sou uma pessoa fácil e estou acostumada com atenção demais. O que eu farei sem meu apoio? Quem vai me ajudar a tomar as decisões da minha vida? O Rodrigo vai estar longe…

Eu tenho que concordar com a parte da minha mente que diz que essa relação fraternal é doentia. Eu TENHO que acreditar que as coisas não deviam ser assim. Vai fazer bem esse desvinculo, essa separação que o universo está nos obrigando a ter. Se ele realmente vir a ficar 3 anos nos EUA, toda minha vida será diferente. Eu serei apenas a Stefany. Com os erros e acertos da Stefany, sem ajuda de ninguém. Vou ter de me sustentar sozinha em cima desses joelhos preguiçosos. Tenho certeza que me fará muito bem. Mas desde quando eu quero o bem?

Eu sei que ele vai voltar, mas só da possibilidade existir, as coisas já mudaram. Eu abri os olhos e vi, sem sombra de duvida, para onde nós estávamos enfiando nossas vidas. Ele nunca vai ser feliz porque eu sou uma puta doente. Eu acho que nunca seria feliz pelo mesmo motivo. Eu não posso abraçar o mundo dele, e o obrigo a abraçar o meu.

O quão terrível eu sou?

E quantas vezes eu disse “eu”?

Tudo volta ao egoísmo.

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